quinta-feira, 23 de abril de 2009

"O BRASIL JÁ ESTÁ NA CRISE!"



O professor doutor em Economia da Universidade Federal do Ceará, Fernando José Pires de Sousa, disse ontem que “o Brasil já está na crise”. A prova disso seria a queda do Produto Interno Bruto (PIB) e da produção do país. Ele disse ainda que a diminuição do crescimento anual da economia brasileira de 5% (de 2004 a 2007) para cerca de 1% (previsão para 2009) e o aumento do desemprego são outros fatores que sinalizam a autenticidade da crise. Segundo Pires, “esse é um sinal concreto de que o Brasil já foi atingido”.


O professor disse que o avanço de demissões no setor formal da economia evidencia o desemprego e não mudanças no vínculo empregatício. A estabilidade do setor informal não seria suficiente para afirmar o contrário. “Então é desemprego mesmo”, declarou. A indústria seria o setor mais abalado. Ele disse também que a previdência poderá ser afetada em duas vertentes. Uma é a diminuição da contribuição e a outra diz respeito às despesas públicas, pois “você tem aí um aumento dos gastos da assistência social, da saúde e de salário-desemprego”, assegurou.

Sobre a redução do IPI nos setores da construção civil e de automóveis, o professor afirmou ser essa uma forma de criar mais crédito e de segurar a economia. Ele enfatizou a intenção eleitoreira de Lula com essa medida, mas confessou ser ela positiva, pois gera empregos e, conseqüentemente, aumento do consumo e da injeção de capital na economia. Porém, Pires alerta: “O governo tem que saber direitinho até que ponto ele pode deixar de receber”. Já sobre o projeto de construção de um milhão de casas em dois anos para criar mais empregos, facilitar o crédito e estimular a produção, ele reiterou: “Isso vai ter uma repercussão eleitoreira fortíssima”.

Pires informou que “a inflação está sob controle”, pois em um momento de recessão, a demanda por produtos cai e, logo, o preço deles também. Inicialmente a região Nordeste sofre menos com os impactos dessa recessão se ela for passageira, diferente da região Sudeste que é produtora industrial. Porém, Pires garante que “se a crise for prolongada, todo mundo sofre”.


Para Fernando Pires os países emergentes têm condições de avançar, mas nega que salvem o mundo da crise. Segundo ele, “o mundo capitalista não tem salvação não!” Apesar de avaliar que o sistema terá fim, disse que o Brasil teria grandes chances, produzindo energia e alimentos em grande escala. “Em termos de perspectiva curto, médio prazo, o Brasil estaria bem”, assegurou. Ele citou ainda a crise ambiental evidenciando a importância da diminuição da exploração dos recursos naturais.


Para o professor, “o protecionismo não beneficia o Brasil.” A medida adotada pelo G-20 que pretende eliminar essas proteções, A Rodada de Doha, seria boa para o país, pois possibilita a exportação de commodities brasileiras, mas também é desvantajosa quando produtos estrangeiros de alto valor agregado também chegarem ao Brasil. Porém Pires declara: “Eu não acredito muito que eles vão acabar com esse protecionismo”. Para ele essa medida feriria os interesses dos pequenos agricultores desses países, gerando crise social. Ainda sobre o mercado internacional, ele afirma que o MERCOSUL “pode ser uma estratégia importante” com o uso de uma moeda única e a criação do Banco do Sul.


“Na hora de colaborar ele tem que colaborar ou então ele sai do FMI. É uma questão de pacto”, declarou Pires sobre o empréstimo do Brasil ao FMI. Os países apostam em uma injeção de capital na economia, com o aumento dos créditos e do consumo, mas é difícil pela falta de credibilidade no mercado, disse. O Brasil estaria sendo beneficiado com a possível compra de petróleo pelos EUA. Para o economista, essa “é uma forma de minar a economia da Venezuela para diminuir o poder político do Chávez”, disse.


Numa comparação com a crise de 29, Pires disse ter sido ela mais ligada a uma superprodução com pouco crescimento da população. Em contrapartida, a atual recessão “foi desencadeada principalmente por essa mundialização financeira”, porém ambas são profundas, informou. Disse que os países envolvidos e a mídia empresarial sugerem que a crise seja curta e atenta para o papel pedagógico que os meios de comunicação deveriam ter nesse momento. Apesar de garantir que hoje temos mais recursos contra a crise, ele julga que “os bons analistas, os grandes, não acreditam que ela seja passageira.”

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